[Conto] "Siga-me" Parte 4

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- Se você fizer isso de novo, Guilherme, eu juro que te arranco as presas só por diversão. Moleque sem graça. – Bradou o jovem truculento e careca posto bem às costas do gêmeo que falara sobre a chegada de uma “mãe”.


- Não fale assim, Pedro. – Anunciou uma das mulheres da casa dos doze – Você sabe que o Guto e o Gui são diferentes da gente...


- Ah! Cala a boca, Marina. – Pedro não quis escutar – Esses dois aí estão sempre no mundo da lua e falando coisas sem sentido. Escuta aqui, seu moleque – Pedro colocou a mão musculosa na testa de Guilherme – Da próxima vez abre a garganta de um mendigo e não a porta da nossa casa, falou?


Guilherme continuou com o olhar vago em direção à TV tendo apenas o corpo levemente balançado pelo pequeno empurrão de Pedro, que logo depois se jogou em uma poltrona mais afastada.


Todos ficaram silenciosos por um minuto. Jeová, ignorando as faces confusas dos mais jovens, perguntou algo para Téco que, estático, não respondeu. Ele ainda estava preso em sua raiva, jurava para si mesmo que havia visto a morena do Boqueirão entrar por aquela porta, era por isso que tinha os pulsos serrados e as presas à mostra. A porta ainda estava aberta, mas como no despertar de um sonho os detalhes foram desaparecendo. Ele concentrou-se com força nas imagens que havia visto, sentia-se em uma briga com sua memória, sendo ele quem tentava lembrar e ela que queria ser esquecida. Alguém havia entrado pela porta. Isso ele tinha certeza. E o que era aquilo agora? Um eco na sua cabeça. Um toque no ombro. Téco voltou para sala.


- Está me ouvindo rapaz? – Disse Jeová com a mão levemente apoiada no ombro de Téco.

Ele sacudiu a cabeça, ainda confuso.


- Você sabe por que está aqui? – Jeová perguntou.


- Porque nós somos... Iguais?! – Téco respondeu hesitante.


- Justamente e não somente. – Jeová rebateu – Não somos iguais apenas porque somos vampiros, mesmo porque, apesar de iguais na nossa natureza somos diferentes entre si. Dependemos do Patre Petitum daquele que nos cria para sermos o que somos, e nisto sim somos iguais. Ao menos em relação ao Patre somos iguais. – Acrescentou.


- Filhos do mesmo pai? – Téco perguntou.


Jeová concordou silenciosamente e manteve-se frente à Téco como quem espera alguma informação. Téco não se envolvia a fundo na conversa, ainda pensava na mulher que invadira a pouco aquela casa sem ser notada. Seria isso mesmo? Estava alucinando depois de morto? Deu um suspiro curto, relembrava as imagens mais nítidas como se aquela confusão que lhe assombrara há pouco nunca houvesse existido. Acomodou-se no sofá e ainda demorou alguns segundos para perceber os olhos inquisidores que Jeová pregava aos seus. Eram os olhos verdes mais hipnotizadores que já havia visto.


- O que te aflige? – perguntou o mais velho.


- Me sinto confuso agora. Acabei de ver algo que ninguém percebeu, uma mulher entrou por aquela porta, e ela era extremamente parecida com aquela que me seduziu lá no Boqueirão. Tipo, quando eu ainda era eu. Antes daquele cara do riso abafado me pegar. – Téco respondeu aquilo que pensava sem ao menos perceber que falava.


- Você lembra o que aquele que te criou te disse?


Téco sentiu-se imergir das nevoas que lhe tomavam os pensamentos. Não lembrava-se do que aconteceu nos últimos momentos. Parecia ter pensado em algo para responder a primeira pergunta e logo já aparecia uma outra. Ele não havia respondido à primeira, ao menos pensava não ter respondido. Novos pensamentos cruzaram sua mente como um raio cortando o céu. Ele se lembrou dos olhos hipnóticos, era isso, Jeová estava hipnotizando-o.


- Eu não me lembro. – Téco blefou.


Visivelmente incomodado, Jeová olhou para os outros vampiros da casa.


- Mas todos daqui se lembram do Patre Petitum. – Jeová anunciou – Você realmente não se lembra?

Téco sentiu o esforço de Jeová para lhe forçar uma resposta, mas a hipnose já não funcionava. Com os olhos nos olhos Téco reafirmou seu blefe, se aquele senhor estava tentando entrar na sua cabeça para lhe fazer falar era sinal de que havia algo mais estranho naquela casa do que doze vampiros e um fantasma.


- Se eu tiver um lugar para pensar onde não se tenha tantos olhos e ouvidos me esperando lembrar, eu agradeceria. – Na verdade, Téco só queria ficar sozinho.


- Claro, desculpe a minha pressa. Estamos em uma péssima situação por aqui. – Jeová pareceu, num breve momento, frustrado – André, leve o garoto lá para cima. O sol nascerá logo, então nos falamos amanhã após anoitecer.


Téco concordou e acompanhou André pela escada que levava ao andar superior. A noite se aproximava do fim, mas Téco sentia que haveria tempo para explicações ou, no mínimo, conclusões.


- André, o que tem de errado com aqueles gêmeos? – perguntou quando atingiram o segundo andar.


- É difícil falar, eles praticamente passam a noite grudados naquela televisão. O Gustavo até que ajuda às vezes, ele meio que sente o que sentem. Agora, o Guilherme só fala coisas sem sentido, a gente acha que ele tem telescinese ou algo assim.


- Tipo... Mexer as coisas com a força do pensamento?


- Mais ou menos isso. Mas o que é mais estranho nos dois é que parecem que eles estão sempre esperando algo. – André parou frente à uma porta – Você pode ficar aqui, por enquanto.


- Tudo bem, obrigado.


André deixou Téco com muito que pensar naquele quarto sem janelas. Havia algo para descobrir. Ele sabia que havia.

[Conto] A Cuidadora

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Hoje não foi um dos meus melhores dias, se é que ainda me lembro de todos eles. Estava a fim de sair daquela casa cheia de gente importuna e ávida por explicações. Brincando de detetive, chegando um após o outro e se amontoando pelos cantos. Se eles conseguissem me ver ou soubessem o que eu já passei viveriam para me servir.

Saí para procurar algum jovenzinho drogado ou de porre, que acordaria fraco e sem se lembrar do que aconteceu na noite anterior, com a ajuda de uma confusão mental de minha parte, imaginando ter sonhado com seres sobrenaturais. Ah! Essa humanidade tola, que pega nossas histórias e as deturpam. Ganham a nossas custas, sobre nossas habilidades sangrentas, sórdidas e belas. Por favor! Existem mais motivos para matarmos agora do que quando realmente nos conheciam e nos perseguiam. Antes era sobrevivência, hoje é mais que isso, é um jogo.

Aquela rua quase não tinha iluminação, e o som abafado de uma boate próxima fazia tum-tum nos meus tímpanos, música desprezível. Gosto muito daquela rua, pouca gente transitando de madrugada, às vezes um grupo de jovens saindo da boate, às vezes sozinhos pedindo taxis e muitas vezes, jovens entorpecidos e despreocupados, querendo mais uma farra para terminar a noite. Um qualquer passou por mim sozinho e cambaleante, não sou de escolher quem eu caço, mas adoro os filhinhos de papai, aquele era um e assoviou me chamando de princesa logo em seguida. Senti o cheiro do suor e álcool, forte e apelativo.

- Você tem fogo? – eu o chamei.

Ele virou e sorriu.

- Sozinha a essa hora morena? Não quer companhia?

Desprezível seria de qualquer jeito, se tendo boas intenções ou não. Ele segurou-me pelos braços e sorriu novamente, seu cheiro ficou mais forte e meu desejo também. Tinha bafo de cerveja, vodka e cigarro, e cheiro de sexo. Ah! Quantos prazeres eu deixei para trás. Era a presa perfeita, daqueles que acham mais fortes que eu, que conseguirão tirar algum proveito de mim. Fui arrastada para um beco escuro e quase não me continha de satisfação, esses jovens tão previsíveis, senhores de si e do mundo. O mesmo beco, as mesmas palavras imundas de bocas imundas. Quer ganhar algo dos meus? Escreva sobre eles, quem sabe não se fica famoso falando sobre vampiros que brilham no sol? É o máximo que terá.

Simulei medo e pavor, sempre achei que seria uma boa atriz, apesar de nunca ter sido mais que uma dançarina de cabaret. A hora do bote tremia de ansiedade. Acho estranho como essas sensações não somem com a experiência. Foi fácil tirar os braços que estavam em torno de mim, ver o susto e o medo nos olhos, por os braços às costas dele e sussurrar no ouvido qualquer coisa banal sobre a morte, ouvir a respiração acelerada, os batimentos do coração, ver a artéria do pescoço pulsando, pulsando, pulsando...

- Sabe o que eu sou? – pergunto.

- Que porra é essa? – ele gritou.

Apesar de acostumada com esses gritos abafados e dissimulados, ouvi algo que me chamou a atenção. Surpreendo-me deixo o jovem fugir, e esqueço da noite de diversão correndo pela rua a fora em suas roupas de marca. Mas e isso agora? Ironia do destino, azar, acaso? Acaso não deveria ser: um lobo não sai a toa pelas ruas, ele também sai à caça. Este não me deu atenção, se é que me viu. Parecia cansado e com sinais de luta, passou com determinação e passos rápidos. Hoje não foi uma boa noite para sair de casa e a ela tenho de retornar, faminta, frustrada e nervosa. O ninho não pode ficar desprotegido, o ninho deve permanecer seguro, sempre.


Texto por Nayara Tiemi Naves
Adaptação por J.C Rossi

Informativo

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Olá leitores, estou postando para dizer que não haverá contos no blog nos próximos 15 dias. Depois de uma semana adoentado e uma semana de provas, preciso de um tempinho para me organizar.

Um abraço!

[Conto] Diário de um Vampiro (página 2)

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Sou senhor de mim mesmo e disso nunca duvidei. Mas o tempo passa, independente do que você é ou do que você quer. O tempo sempre passa. É com a pincelada do tempo que aprendemos as mais diversas coisas, e é nela, também, que se faz possível o esquecimento. Mas e quando muito se aprende e nada se esquece? Parece-me que nessa ocasião, cedo ou tarde, tudo que se aprende entra em conflito com aquilo que não se esquece. Quanto mais experiência e conhecimento se adquirem maior serão as dúvidas e o sentimento de impotência.


Vários de minha raça são hipnotizados por aquilo que chamam de poder. São eles que espalham aos ventos que nossa natureza se remete a dominação e acumulação de influências sobre a humanidade. Esses se vangloriam de superioridade e sentam em poltronas talhadas em materiais nobres e exercem sobre os seus pares e sobre os humanos a condição de líder ou ditador. São vampiros fortes e velhos, possuídos pela cegueira e acomodação. Acreditam serem detentores de tantos poderes que quando seus servos e súditos acreditam, assim eles se tornam. Acredito que isso não aconteceu quando o primeiro líder disse que liderava, mas sim quando o primeiro servo aceitou a fala do outro. Nossa falsa organização, como muitas outras nesse mundo, começou inocentemente pela fé cega.

Toda nossa existência é baseada em uma espécie de fé cega. Tornamos-nos exatamente aquilo que acreditamos querer ser quando bebemos do sangue humano. É a nossa plasticidade, que é tão pouco aproveitada, por sinal. Isto porque todo criador já tem seus traços cristalizados, e, por conseguinte, todo novo vampiro se assemelhará ao seu criador. O que acontece nesse meio é que surgiram e surgirão gerações e gerações de vampiros que acreditam dominar ou serem dominados. Uma enorme e tediosa repetição.

Por vias que até então desconhecia, naquela noite em que decidi que deveria morrer, fui de encontro a algo que iria ditar meus dias até esse momento. Fui feito vampiro por um outro que salvei a vida quando ele aceitava seu fim. Nossos caminhos se cruzaram pela segunda vez naquela noite.

A primeira vez que nos encontramos, embora não me recordasse daquele ocorrido naquela noite, foi em uma situação estranha em que havia encontrado um homem amarrado com jóias de prata em um tronco meio ao pasto sob a luz da lua. Ele mesmo me disse que eu havia lhe soltado daquele tronco que seria seu jazigo e lhe dado tempo para abrigar-se do sol que nasceria. Só tempos depois ele me disse que havia se alimentado de mim e distorcido minhas memórias sobre o ocorrido.

O Fato que desencadeou vários outros fatores foi que meu criador me deixou livre para descobrir o mundo da escuridão.

É de se pensar que eu estava livre para ser um vampiro único e livre das influencias de meu criador. Um pensamento errado. Justamente descobrir o mundo da escuridão foi o que se cristalizou em mim. É a minha obsessão. Foi o que eu fiz. Foi o que me tornei.

Serei eu mesmo o senhor de meus atos?

Na busca de um novo Template

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Olá leitores... estou apanhando um pouco na tentativa de fazer um novo template para o blogger. A versão beta é essa que vocês podem ver, mas provavelmente ainda darei uma mudada.

Opinem.