- Se você fizer isso de novo, Guilherme, eu juro que te arranco as presas só por diversão. Moleque sem graça. – Bradou o jovem truculento e careca posto bem às costas do gêmeo que falara sobre a chegada de uma “mãe”.
- Não fale assim, Pedro. – Anunciou uma das mulheres da casa dos doze – Você sabe que o Guto e o Gui são diferentes da gente...
- Não fale assim, Pedro. – Anunciou uma das mulheres da casa dos doze – Você sabe que o Guto e o Gui são diferentes da gente...
- Ah! Cala a boca, Marina. – Pedro não quis escutar – Esses dois aí estão sempre no mundo da lua e falando coisas sem sentido. Escuta aqui, seu moleque – Pedro colocou a mão musculosa na testa de Guilherme – Da próxima vez abre a garganta de um mendigo e não a porta da nossa casa, falou?
Guilherme continuou com o olhar vago em direção à TV tendo apenas o corpo levemente balançado pelo pequeno empurrão de Pedro, que logo depois se jogou em uma poltrona mais afastada.
Todos ficaram silenciosos por um minuto. Jeová, ignorando as faces confusas dos mais jovens, perguntou algo para Téco que, estático, não respondeu. Ele ainda estava preso em sua raiva, jurava para si mesmo que havia visto a morena do Boqueirão entrar por aquela porta, era por isso que tinha os pulsos serrados e as presas à mostra. A porta ainda estava aberta, mas como no despertar de um sonho os detalhes foram desaparecendo. Ele concentrou-se com força nas imagens que havia visto, sentia-se em uma briga com sua memória, sendo ele quem tentava lembrar e ela que queria ser esquecida. Alguém havia entrado pela porta. Isso ele tinha certeza. E o que era aquilo agora? Um eco na sua cabeça. Um toque no ombro. Téco voltou para sala.
- Está me ouvindo rapaz? – Disse Jeová com a mão levemente apoiada no ombro de Téco.
Ele sacudiu a cabeça, ainda confuso.
- Você sabe por que está aqui? – Jeová perguntou.
- Porque nós somos... Iguais?! – Téco respondeu hesitante.
- Justamente e não somente. – Jeová rebateu – Não somos iguais apenas porque somos vampiros, mesmo porque, apesar de iguais na nossa natureza somos diferentes entre si. Dependemos do Patre Petitum daquele que nos cria para sermos o que somos, e nisto sim somos iguais. Ao menos em relação ao Patre somos iguais. – Acrescentou.
- Filhos do mesmo pai? – Téco perguntou.
Jeová concordou silenciosamente e manteve-se frente à Téco como quem espera alguma informação. Téco não se envolvia a fundo na conversa, ainda pensava na mulher que invadira a pouco aquela casa sem ser notada. Seria isso mesmo? Estava alucinando depois de morto? Deu um suspiro curto, relembrava as imagens mais nítidas como se aquela confusão que lhe assombrara há pouco nunca houvesse existido. Acomodou-se no sofá e ainda demorou alguns segundos para perceber os olhos inquisidores que Jeová pregava aos seus. Eram os olhos verdes mais hipnotizadores que já havia visto.
- O que te aflige? – perguntou o mais velho.
- Me sinto confuso agora. Acabei de ver algo que ninguém percebeu, uma mulher entrou por aquela porta, e ela era extremamente parecida com aquela que me seduziu lá no Boqueirão. Tipo, quando eu ainda era eu. Antes daquele cara do riso abafado me pegar. – Téco respondeu aquilo que pensava sem ao menos perceber que falava.
- Você lembra o que aquele que te criou te disse?
Téco sentiu-se imergir das nevoas que lhe tomavam os pensamentos. Não lembrava-se do que aconteceu nos últimos momentos. Parecia ter pensado em algo para responder a primeira pergunta e logo já aparecia uma outra. Ele não havia respondido à primeira, ao menos pensava não ter respondido. Novos pensamentos cruzaram sua mente como um raio cortando o céu. Ele se lembrou dos olhos hipnóticos, era isso, Jeová estava hipnotizando-o.
- Eu não me lembro. – Téco blefou.
Visivelmente incomodado, Jeová olhou para os outros vampiros da casa.
- Mas todos daqui se lembram do Patre Petitum. – Jeová anunciou – Você realmente não se lembra?
Téco sentiu o esforço de Jeová para lhe forçar uma resposta, mas a hipnose já não funcionava. Com os olhos nos olhos Téco reafirmou seu blefe, se aquele senhor estava tentando entrar na sua cabeça para lhe fazer falar era sinal de que havia algo mais estranho naquela casa do que doze vampiros e um fantasma.
- Se eu tiver um lugar para pensar onde não se tenha tantos olhos e ouvidos me esperando lembrar, eu agradeceria. – Na verdade, Téco só queria ficar sozinho.
- Claro, desculpe a minha pressa. Estamos em uma péssima situação por aqui. – Jeová pareceu, num breve momento, frustrado – André, leve o garoto lá para cima. O sol nascerá logo, então nos falamos amanhã após anoitecer.
Téco concordou e acompanhou André pela escada que levava ao andar superior. A noite se aproximava do fim, mas Téco sentia que haveria tempo para explicações ou, no mínimo, conclusões.
- André, o que tem de errado com aqueles gêmeos? – perguntou quando atingiram o segundo andar.
- É difícil falar, eles praticamente passam a noite grudados naquela televisão. O Gustavo até que ajuda às vezes, ele meio que sente o que sentem. Agora, o Guilherme só fala coisas sem sentido, a gente acha que ele tem telescinese ou algo assim.
- Tipo... Mexer as coisas com a força do pensamento?
- Mais ou menos isso. Mas o que é mais estranho nos dois é que parecem que eles estão sempre esperando algo. – André parou frente à uma porta – Você pode ficar aqui, por enquanto.
- Tudo bem, obrigado.
André deixou Téco com muito que pensar naquele quarto sem janelas. Havia algo para descobrir. Ele sabia que havia.



