[Conto] Diário de um Vampiro (página 2)

Sou senhor de mim mesmo e disso nunca duvidei. Mas o tempo passa, independente do que você é ou do que você quer. O tempo sempre passa. É com a pincelada do tempo que aprendemos as mais diversas coisas, e é nela, também, que se faz possível o esquecimento. Mas e quando muito se aprende e nada se esquece? Parece-me que nessa ocasião, cedo ou tarde, tudo que se aprende entra em conflito com aquilo que não se esquece. Quanto mais experiência e conhecimento se adquirem maior serão as dúvidas e o sentimento de impotência.


Vários de minha raça são hipnotizados por aquilo que chamam de poder. São eles que espalham aos ventos que nossa natureza se remete a dominação e acumulação de influências sobre a humanidade. Esses se vangloriam de superioridade e sentam em poltronas talhadas em materiais nobres e exercem sobre os seus pares e sobre os humanos a condição de líder ou ditador. São vampiros fortes e velhos, possuídos pela cegueira e acomodação. Acreditam serem detentores de tantos poderes que quando seus servos e súditos acreditam, assim eles se tornam. Acredito que isso não aconteceu quando o primeiro líder disse que liderava, mas sim quando o primeiro servo aceitou a fala do outro. Nossa falsa organização, como muitas outras nesse mundo, começou inocentemente pela fé cega.

Toda nossa existência é baseada em uma espécie de fé cega. Tornamos-nos exatamente aquilo que acreditamos querer ser quando bebemos do sangue humano. É a nossa plasticidade, que é tão pouco aproveitada, por sinal. Isto porque todo criador já tem seus traços cristalizados, e, por conseguinte, todo novo vampiro se assemelhará ao seu criador. O que acontece nesse meio é que surgiram e surgirão gerações e gerações de vampiros que acreditam dominar ou serem dominados. Uma enorme e tediosa repetição.

Por vias que até então desconhecia, naquela noite em que decidi que deveria morrer, fui de encontro a algo que iria ditar meus dias até esse momento. Fui feito vampiro por um outro que salvei a vida quando ele aceitava seu fim. Nossos caminhos se cruzaram pela segunda vez naquela noite.

A primeira vez que nos encontramos, embora não me recordasse daquele ocorrido naquela noite, foi em uma situação estranha em que havia encontrado um homem amarrado com jóias de prata em um tronco meio ao pasto sob a luz da lua. Ele mesmo me disse que eu havia lhe soltado daquele tronco que seria seu jazigo e lhe dado tempo para abrigar-se do sol que nasceria. Só tempos depois ele me disse que havia se alimentado de mim e distorcido minhas memórias sobre o ocorrido.

O Fato que desencadeou vários outros fatores foi que meu criador me deixou livre para descobrir o mundo da escuridão.

É de se pensar que eu estava livre para ser um vampiro único e livre das influencias de meu criador. Um pensamento errado. Justamente descobrir o mundo da escuridão foi o que se cristalizou em mim. É a minha obsessão. Foi o que eu fiz. Foi o que me tornei.

Serei eu mesmo o senhor de meus atos?

1 comentários:

Bgoo disse...

Difícil de achar esse linkzinho do comentário! Eu adorei esse post. Poder é produção. A fé é poder...e.. hum.. ok. beijo