[Conto] A Cuidadora

Hoje não foi um dos meus melhores dias, se é que ainda me lembro de todos eles. Estava a fim de sair daquela casa cheia de gente importuna e ávida por explicações. Brincando de detetive, chegando um após o outro e se amontoando pelos cantos. Se eles conseguissem me ver ou soubessem o que eu já passei viveriam para me servir.

Saí para procurar algum jovenzinho drogado ou de porre, que acordaria fraco e sem se lembrar do que aconteceu na noite anterior, com a ajuda de uma confusão mental de minha parte, imaginando ter sonhado com seres sobrenaturais. Ah! Essa humanidade tola, que pega nossas histórias e as deturpam. Ganham a nossas custas, sobre nossas habilidades sangrentas, sórdidas e belas. Por favor! Existem mais motivos para matarmos agora do que quando realmente nos conheciam e nos perseguiam. Antes era sobrevivência, hoje é mais que isso, é um jogo.

Aquela rua quase não tinha iluminação, e o som abafado de uma boate próxima fazia tum-tum nos meus tímpanos, música desprezível. Gosto muito daquela rua, pouca gente transitando de madrugada, às vezes um grupo de jovens saindo da boate, às vezes sozinhos pedindo taxis e muitas vezes, jovens entorpecidos e despreocupados, querendo mais uma farra para terminar a noite. Um qualquer passou por mim sozinho e cambaleante, não sou de escolher quem eu caço, mas adoro os filhinhos de papai, aquele era um e assoviou me chamando de princesa logo em seguida. Senti o cheiro do suor e álcool, forte e apelativo.

- Você tem fogo? – eu o chamei.

Ele virou e sorriu.

- Sozinha a essa hora morena? Não quer companhia?

Desprezível seria de qualquer jeito, se tendo boas intenções ou não. Ele segurou-me pelos braços e sorriu novamente, seu cheiro ficou mais forte e meu desejo também. Tinha bafo de cerveja, vodka e cigarro, e cheiro de sexo. Ah! Quantos prazeres eu deixei para trás. Era a presa perfeita, daqueles que acham mais fortes que eu, que conseguirão tirar algum proveito de mim. Fui arrastada para um beco escuro e quase não me continha de satisfação, esses jovens tão previsíveis, senhores de si e do mundo. O mesmo beco, as mesmas palavras imundas de bocas imundas. Quer ganhar algo dos meus? Escreva sobre eles, quem sabe não se fica famoso falando sobre vampiros que brilham no sol? É o máximo que terá.

Simulei medo e pavor, sempre achei que seria uma boa atriz, apesar de nunca ter sido mais que uma dançarina de cabaret. A hora do bote tremia de ansiedade. Acho estranho como essas sensações não somem com a experiência. Foi fácil tirar os braços que estavam em torno de mim, ver o susto e o medo nos olhos, por os braços às costas dele e sussurrar no ouvido qualquer coisa banal sobre a morte, ouvir a respiração acelerada, os batimentos do coração, ver a artéria do pescoço pulsando, pulsando, pulsando...

- Sabe o que eu sou? – pergunto.

- Que porra é essa? – ele gritou.

Apesar de acostumada com esses gritos abafados e dissimulados, ouvi algo que me chamou a atenção. Surpreendo-me deixo o jovem fugir, e esqueço da noite de diversão correndo pela rua a fora em suas roupas de marca. Mas e isso agora? Ironia do destino, azar, acaso? Acaso não deveria ser: um lobo não sai a toa pelas ruas, ele também sai à caça. Este não me deu atenção, se é que me viu. Parecia cansado e com sinais de luta, passou com determinação e passos rápidos. Hoje não foi uma boa noite para sair de casa e a ela tenho de retornar, faminta, frustrada e nervosa. O ninho não pode ficar desprotegido, o ninho deve permanecer seguro, sempre.


Texto por Nayara Tiemi Naves
Adaptação por J.C Rossi

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